Com o fim do teletrabalho, há animais que apresentam sintomadas de ansiedade de separação dos donos, segundo afirma a médica veterinária Sara Faria.

Ansiedade de separação nos nossos animais

Durante os primeiros meses da pandemia provocada pela COVID-19, as pessoas foram forçadas a uma adaptação rápida a esta nova realidade, fazendo alterações profundas no seu quotidiano. Como resultado do teletrabalho e do confinamento imposto, verificou-se uma diminuição inevitável da sociabilização, aumentou o tempo livre disponível e grande parte das rotinas deixaram de existir.

Estas alterações provocaram uma aproximação dos tutores aos seus animais de companhia, e encorajaram outros a encontrarem um companheiro de quatro patas para os ajudar a ultrapassar esta nova realidade. Isto traduziu-se num grande crescimento no número de adoções de animais por todo o mundo.

A par disso, a ideia de que a presença de um animal de companhia foi um fator importante ao nível da preservação da saúde mental humana foi amplamente difundida nos órgãos de comunicação social, no entanto, pouco se falou sobre as implicações da pandemia na saúde e bem-estar da população animal.

Será que para os animais, a companhia permanente do tutor trouxe só coisas positivas?

Claro que cada caso é um caso e vários fatores influenciam o comportamento dos animais com acompanhamento constante. É perigoso generalizar e concluir que todos os cães adoraram a companhia dos tutores e que no caso dos gatos, nem por isso. É verdade que há características da própria espécie que tornam os cães animais mais sociáveis do que os gatos, mas existe bastante variabilidade em cada individuo. Qualquer animal de companhia pode experienciar consequências negativas do período de confinamento em casa, sendo que a sua qualidade de vida é altamente influenciada pelas suas características físicas, pelo ambiente em que estão inseridos, assim como pelo comportamento e estilo de vida dos tutores.

É muito importante para qualquer animal ter opção de escolha quanto ao ter acesso ao ambiente social ou evitá-lo por completo, assim como ter à disposição ferramentas para a sua estimulação mental, tanto em conjunto com o tutor, como no período passado sozinho. Embora ganhe especial importância nos gatos, deve ser sempre garantida uma divisão ou espaço na casa onde os animais se possam refugiar sempre que precisarem.

É altamente provável que os animais adotados durante a pandemia sintam menos estas alterações, uma vez que foram raros os momentos em que foram deixados sozinhos por um grande período de tempo.

No entanto, agora que a pandemia parece estar finalmente a sofrer algum controlo, com o alívio das restrições impostas pela COVID-19, com o regresso dos tutores ao trabalho presencial e a presença cada vez mais assídua em planos sociais fora da habitação, há uma grande probabilidade destes animais virem a sofrer de ansiedade de separação.

Mas afinal o que é isto de ansiedade de separação e como podemos perceber se os nossos animais sofrem deste problema?

Esta ansiedade manifesta-se como uma reação emocional e comportamental exagerada que acontece no momento de separação do animal com o tutor. É muitas vezes descrito como um pânico comparável a um medo irracional, como acontece com as fobias. Os sinais mais comuns reportados pelos tutores são a vocalização intensa, o comportamento destrutivo da casa e o facto de fazerem as necessidades em locais inapropriados quando são deixados sozinhos, sem vigilância. Estas são as alterações mais reportadas, provavelmente por serem as mais facilmente percetíveis pelos tutores e com maior impacto nas suas vidas. No entanto, existem outros comportamentos que podem passar despercebidos, como a hiperventilação, hipersalivação, falta de apetite e em casos mais severos, pode mesmo ocorrer auto-mutilação.

Para evitar este potencial desafio, é recomendado que os tutores comecem a preparar os seus animais para esta eventualidade, atempadamente. Ensiná-los a ficar no comando, aumentando gradualmente o tempo que são deixados sozinhos em casa. Esta é a abordagem mais simples, mas que deve ser complementada com algum grau de enriquecimento ambiental, como por exemplo com brinquedos, jogos, ou esconderijos e obstáculos no caso dos gatos, para que tenham a possibilidade de brincar e de se manterem ocupados quando os tutores não estão presentes.

Ainda assim, alguns casos de ansiedade mais severos, podem não ser fáceis de lidar sem a ajuda de um profissional. Como tal, os tutores devem estar atentos a estes sinais, e caso suspeitem que os seus animais não estão a apresentar melhorias, devem recorrer a um especialista em comportamento animal ou ao seu médico veterinário para outras abordagens.

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