Sara Faria, médica veterinária, reflete sobre os conceitos de imunidade e vacinação, bem como as suas origens históricas.

Imunidade e vacinação? Qual a origem destes conceitos?

Numa altura em que se fala tanto de imunidade e vacinação, porque não recuar um pouco na história e percebermos a origem destes dois conceitos?

A primeira referência ao conceito de imunidade surgiu no ano 430 a.C., durante uma epidemia conhecida como Peste de Atenas. De forma empírica, concluiu-se que pessoas que recuperavam dessa doença, não voltavam a manifestar sintomas, ou então, demonstravam apenas uma forma mais leve da mesma.

Já no século X, na China e na Índia, como resposta à epidemia de varíola que se vivia na época, com uma taxa de mortalidade muito elevada, iniciou-se um processo de imunização que se baseava na inoculação de material das pústulas em indivíduos saudáveis. Este processo denominava-se “variolação” e obteve grandes taxas de sucesso junto da população, diminuindo drasticamente o número de infetados por varíola.

Anos mais tarde, a variolação foi introduzida na Europa por um médico, Emanuele Timoni, e por uma aristocrata inglesa, Lady Mary Wortley Montagu, tendo sido amplamente distribuída e utilizada durante vários anos.

No entanto, começaram a levantar-se preocupações acerca da segurança deste método, que apesar de eficaz na redução da mortalidade causada pela varíola, implicava a introdução de um agente vírico vivo numa pessoa saudável, que poderia morrer da própria inoculação.

De forma a tentar contornar este problema, o médico Edward Jenner, criou a primeira vacina, com base na sua observação da varíola bovina e da variante humana. De forma empírica, concluiu-se que as senhoras que faziam ordenha desenvolviam pústulas nas mãos, devido à varíola bovina. Esta forma menos agressiva da doença, tornava-as mais resistentes às epidemias de varíola que aconteciam na época.

Com base nisto, decidiu-se inocular pessoas com material do vírus que afetava os bovinos, sendo este atenuado para humanos, de forma a provocar uma resposta imunológica, que as tornasse resistentes à forma grave da doença. O termo vacina teve aí a sua origem, vindo do latim vacca, por ter tido origem no vírus dos bovinos.

Este processo ainda hoje é utilizado como método para o fabrico de vacinas: inoculação de microrganismos cuja virulência é atenuada, tornando o organismo menos capaz de provocar doença, mas que ainda assim, seja capaz de induzir uma resposta por parte do sistema imunológico.

Este procedimento trouxe um ganho enorme na segurança da inoculação, tendo sido amplamente disseminado pelo mundo, e trazendo consigo um ganho enorme para a saúde pública. De tal forma que culminou, em 1980, com a declaração da erradicação da varíola, tendo sido um dos maiores sucessos da imunologia. Calcula-se que, com este procedimento, se tenha poupado mais de 500 milhões de vidas.

Após o trabalho de Jenner, também o cientista Louis Pasteur teve um contributo fulcral para a evolução da imunologia e microbiologia, com os seus trabalhos na identificação do vírus da Raiva e com o desenvolvimento de uma vacina capaz de prevenir e tratar doentes que contraíram esta doença.

Até à atualidade, verificaram-se diversas descobertas no campo da imunologia, tornando a vacinação cada vez mais segura e eficaz.

Graças a essas conquistas, conseguimos controlar efetivamente nas últimas décadas, algumas das doenças com maior incidência e com maior taxa de mortalidade, tanto nos animais como nas pessoas, sendo que atualmente o espetro de doenças mais mortais passou a ser as patologias cardiovasculares e oncológicas.

Numa fase em que temos um acesso facilitado à informação, temos de nos consciencializar que a vacinação é a melhor maneira de nos protegermos de uma variedade de doenças graves e das suas complicações que podem levar à morte.

Todos nós temos o direito e o dever à vacinação, e negarmo-nos a isso, não nos coloca em risco só a nós individualmente, mas também à nossa família, aos nossos animais e à sociedade no geral, tanto numa perspetiva de saúde como económica.

Cada vez mais temos de pensar numa perspetiva One Health, um Mundo, Uma Saúde, contribuindo individualmente para um mundo mais seguro e equilibrado.

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