À medida que os anos passam, tendemos a esquecer a importância de certas questões, tal como quem nascer pós-pandemia Covid-19 poderá vir a desvalorizar o nosso esforço atual. Numa fase em que estamos mais conscientes para os vírus e para as vias de transmissão entre animais e humanos, é pertinente abordarmos o vírus da Raiva, cujo Dia Mundial se assinala a 28 de setembro.

A raiva é uma zoonose, ou seja, trata-se de uma doença que afeta muitos mamíferos, nomeadamente o morcego e o cão, que a transmitem ao Homem.

O vírus está presente na saliva de animais infetados – daí que a transmissão ocorra através da mordedura – e tem uma grande afinidade com o tecido nervoso, sobretudo o sistema nervoso central, o qual é alcançado através dos nervos periféricos. Quando o vírus se instala no cérebro, provoca inflamação – uma encefalite –, que se traduz em alterações do comportamento e posteriormente em paralisia. O animal acaba por morrer em consequência dessa paralisia, que leva a paragem cardiorrespiratória. A doença é sempre fatal nos animais e quase sempre no Homem.

O período de incubação da doença é bastante variável, desde dias a semanas, dependendo da proximidade do local da mordedura ao sistema nervoso central e da estirpe do vírus. Devido à alteração comportamental, alguns animais silvestres perdem o medo de se aproximarem de zonas urbanas. Daqui resultam interações com o Homem ou com animais domésticos, que habitualmente terminam em confrontos com a concretização de mordedura.

Portugal está oficialmente livre do vírus da Raiva desde 1961. Tal foi conseguido graças à implementação da melhor medida de prevenção conhecida, a vacinação antirrábica, obrigatória nos cães desde 1925, em Portugal.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, todos os anos morrem 70 mil pessoas devido à doença, a maior parte em idades pediátricas, provavelmente devido à sua maior proximidade a cães doentes. Ao protegermos os nossos cães, através da vacinação, estamos a proteger-nos a nós.

Para além da obrigatoriedade de vacinação no país, é necessária a aplicação no espaço europeu aquando do trânsito e importação animal, sobretudo quando os animais são oriundos de países onde a doença ainda está presente.

Qualquer cão que tenha um comportamento agressivo, que morda, mesmo que em virtude de outros fatores do foro comportamental, passa a ser considerado perigoso, independentemente da raça. Assim, o cão com comportamento sugestivo de Raiva deve ser encaminhado para o médico veterinário que o acompanha ou, preferencialmente, para o médico veterinário municipal, que faz a avaliação clínica e verifica a imunidade para o vírus (isto é, se o cão está vacinado). Contudo, é de ressalvar que o diagnóstico inequívoco da Raiva é estabelecido apenas após a morte.

Qualquer caso de mordedura contra pessoas deve ser reportado às entidades competentes para se prosseguir com o protocolo legal, nos termos do Decreto de Lei n.º 290/2003, de 15 de Novembro.

Certamente haverá quem considere que as exigências legais são fruto de exagero legislativo, mas esta é uma questão de saúde pública. Imagine que, ao passear na rua com o seu cão pela trela, surge outro cão que ataca o seu. Como pode saber se o cão agressor é vacinado contra a raiva? Como pode saber se não foi ilegalmente importado de um país em que a doença está presente? Agora imagine se, em vez do seu cão, for o seu filho a ser mordido. Portugal demorou 36 anos a eliminar este vírus. Haverá alguma razão para facilitarmos e para arriscarmos colocar em risco a nossa saúde e bem-estar familiar?

Neste momento, a vacina da raiva é a única vacina obrigatória para cães. Pode ser administrada a partir dos três meses, mas requer a identificação eletrónica prévia. Em idade adulta, o reforço vacinal constitui por norma a razão primordial para a visita anual do cão ao médico veterinário – momento que deve ser aproveitado para avaliar o estado de saúde do animal. A vigilância anual permite praticar uma medicina preventiva, favorecendo o sucesso do tratamento de eventuais problemas de saúde.

Sara Coelho / VO

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