A perda auditiva nos ratos-toupeira nus é na realidade uma característica adaptativa benéfica, de acordo com um estudo publicado a 3 de setembro no Current Biology.

Curiosos em relação à audição deste animal muito social e vocal, que é “bastante má”, os investigadores procuraram perceber o porquê desta característica, que à partida pode parecer uma desvantagem ou uma coincidência infeliz.

“Os ratos-toupeira estão constantemente a guinchar e a chiar“, explicou um dos autores do estudo, o professor de ciências biológicas e neurociência Thomas Park, da Universidade de Illinois Chicago, que ao estudar estes animais durante décadas já descreveu alguns dos seus traços característicos mais bizarros, como a capacidade de sobreviver em condições subterrâneas com pouco oxigénio e a elevada tolerância à dor.

Para perceber esta questão, os investigadores testaram primeiro a audição dos ratos-toupeira nus utilizando tecnologia semelhante àquela que é usada em humanos.

Através de um teste ao potencial auditivo do tronco cerebral, em que se utilizam elétrodos colocados no escalpe para detetar sinais que indiquem que o som está a ser processado no cérebro, os cientistas observaram que estes sinais são fracos. Assim, confirmaram que a audição destes animais é má, “tão má que se fossem pessoas seriam candidatos a aparelhos auditivos”, afirmou Thomas Park.

Posto isto, os autores exploraram a genética destes animais para tentar encontrar algum indicador que explicasse esta perda auditiva. Encontraram seis mutações genéticas associadas à perda auditiva em humanos.

“O facto de haver tantas destas mutações sugere fortemente que estas mutações foram selecionadas porque são conferem alguma forma de adaptação“, elucidou o docente.

Os ratos-toupeira nus são mamíferos sem pêlo da região africana oriental que vivem em colónias no subsolo. Com estruturas sociais semelhantes às das abelhas – com soldados, trabalhadores e uma rainha -, o funcionamento da colónia implica muita cooperação, em grande parte através da comunicação vocal.

Para além destas mutações, os investigadores também descobriram que estes animais não têm amplificação coclear, essencial para que os sons sejam amplificados no ouvido interno por células especializadas – as células ciliadas externas – antes de os sinais sonoros chegarem ao cérebro. Sem esta amplificação coclear, os sons são diminuídos consideravelmente.

Considerando que sons muito altos podem destruir estas células ciliadas responsáveis pela audição, o facto de os ratos-toupeira nus terem estas mutações pode ser uma forma de prevenir que “o barulho constante que produzem” as destrua. As células ciliadas recebem vibrações auditivas e enviam sinais ao cérebro, onde são interpretadas como som, e não têm capacidade de se regenerar, daí que a perda auditiva na maioria dos mamíferos seja progressiva.

Como os ratos-toupeira nus não têm uma amplificação coclear funcional, os sons que ouvem nunca atingem um nível letal para as células ciliadas, e assim os ratos-toupeira nus conseguem aguentar esta cacofonia constante sem que se tornem totalmente surdos“, conclui o responsável.

Sublinhando que esta ausência de amplificação coclear funcional em mamíferos só é conhecida nestes animais, os autores acreditam que estes novos resultados sugerem que os ratos-toupeira nus podem ser um bom modelo animal para investigar a perda auditiva em humanos.

ScienceDaily/VO

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