O abutre-preto, a espécie de abutre mais ameaçada de Portugal, está a consolidar o seu restabelecimento no Alentejo. Neste ano já nasceram e sobreviveram três crias que estão prestes a deixar os ninhos “com sucesso”, foi ontem divulgado.

É na Herdade da Contenda, concelho de Moura, em Beja, que estão nidificados dez casais desta espécie de abutre. Desse modo, consolida-se o restabelecimento do abutre-preto na região, afirmou a Liga para a Proteção da Natureza (LPN) em comunicado, a propósito do Dia Internacional dos Abutres, que se celebra no primeiro sábado de setembro.

Até 2014, a região a sul do rio Tejo não registava nenhuma reprodução desta ave necrófaga há mais de 40 anos. Foi a partir de 2015, e em 2020 pelo “sexto ano consecutivo”, que o “abutre-preto cria com sucesso na Herdade da Contenda e mantém ou aumenta o respetivo número de casais nidificantes“, frisa a LPN.

Atualmente, estes dez casais representam “cerca de um terço dos casais existentes em Portugal”. Segundo a monitorização acompanhada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), desses dez, sete fizeram ninhos naturais construídos pela espécie e três em ninhos artificiais instalados no âmbito do projeto LIFE. para promoção do habitat do lince-ibérico e do abutre-preto no sudeste de Portugal.

Entre esses dez, oito conseguiram fazer a postura de um ovo, como é característico da espécie, num total de oito ovos. Nasceram seis crias, mas três não sobreviveram, uma delas devido a queda do ninho e as outras por causas desconhecidas, “provavelmente devido ao calor extremo durante o seu desenvolvimento”.

Feitas as contas, três casais conseguiram criar com sucesso uma cria, “dando continuidade à recuperação desta ave no sul do país”. Todos machos, as crias já ultrapassaram os três meses de idade e estão “prestes a deixar os seus ninhos com sucesso”.

Esta continuidade, segundo o comunicado, “tem sido possível, sobretudo, em consequência dos esforços de conservação” desenvolvidos pela LPN em colaboração com a empresa municipal Herdade da Contenda, “beneficiando da importante e adequada gestão deste território” propriedade da Câmara de Moura. Embora os resultados representem “mais um passo no sentido da tão desejada e efetiva recuperação da espécie no Alentejo e em Portugal”, também revelam a necessidade de dar continuidade aos esforços de conservação dirigidos ao abutre-preto” para “aumentar a sobrevivência e sucesso na reprodução”, sublinha a LPN, salientando em particular a “necessidade de um acompanhamento mais próximo da reprodução e a intervenção em períodos críticos do desenvolvimento das crias, nomeadamente durante os picos de calor e de escassez de alimento”.

A LPN vinca que “os abutres são extremamente importantes para manter a sanidade dos ecossistemas, mas estão “em risco de extinção em Portugal e sujeitos a diversas ameaças à sua sobrevivência, a maioria de origem humana”, com destaque para o envenenamento e a escassez de alimento.

Também a utilização de um anti-inflamatório não esteroide para o tratamento do gado “representa um enorme risco para estas aves necrófagas” em Portugal, “estando ainda, após vários anos, o Estado Português a avaliar a autorização do seu uso na pecuária”.

Nos últimos anos, a monitorização da reprodução e as medidas de conservação do abutre-preto no Alentejo foram realizadas no âmbito do projeto Orniturismo – Conservação, Proteção e Valorização do Património Ornitológico.

A LPN e a Herdade da Contenda são dois dos parceiros do projeto, que visa conservar, proteger e valorizar o património ornitológico da região transfronteiriça Alentejo-Andaluzia com a finalidade de desenvolver e consolidar modelos de atividades turísticas sustentáveis que possam contribuir para o reforço da economia das duas regiões.

LUSA/VO

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