O estudo, publicado na Nature, desvenda que número de tentáculos das anémonas-do-mar depende da quantidade de comida que o animal ingere.

Até agora não se sabia o que regulava o número de tentáculos que uma anémona-do-mar fazia crescer. Esta descoberta vem desafiar aquilo que acontece em muitas outras espécies animais. Enquanto o número de pernas e braços para os mamíferos, de barbatanas para os peixes ou ainda de pernas e de asas para os insetos está intimamente ligado ao código genético, que o determina, as anémonas-do-mar têm um número de tentáculos variável que não se rege apenas pelo ADN.

Os investigadores do grupo Ikmi no Laboratório Europeu de Biologia Molecular, em colaboração com outros cientistas do laboratório Gibson no Instituto Stowers para Investigação Médica, em Kansas (EUA), foram capazes de mostrar que o fator que define o número de tentáculos deste animal é a quantidade de comida ingerida, embora haja uma interação genética.

Para além disso, os investigadores expuseram que este crescimento de tentáculos acontece também durante a fase adulta da anémona-do-mar e não só nos períodos mais precoces. Ainda que utilize diferentes estratégias para fazer crescer estes tentáculos, consoante a fase da vida, os tentáculos são indistinguíveis do ponto de vista morfológico.

A localização em que os novos membros se formam depende da “pré-marcação” de locais por células musculares do animal, mostra o estudo. Células essas que mudam a sua expressão genética em resposta à comida.

“Controlar o número de tentáculos através da ingestão de alimentos faz com que a anémona-do-mar se comporte mais como uma planta a desenvolver novos ramos do que como um animal a crescer um novo membro”, explica o líder do grupo, Aissam Ikmi.

Segundo o responsável, esta mudança morfológica motivada por fatores ambientais é uma forma de adaptação “muito importante”, dada a longevidade das anémonas-do mar, com algumas espécies a viverem mais do que 65 anos.

“Como animal séssil [fixado em algo ou estacionário] predominantemente, as anémonas-do-mar têm estratégias evolutivas para lidar com as mudanças ambientais que permitam sustentar a longa longevidade”, explica.

Se os humanos fossem capazes de fazer o mesmo, imagina Aissam Ikmi, seria como ter um humano a  conseguir fazer crescer “mais braços e pernas” quanto mais comesse. “Seria muito útil se conseguíssemos ativar este mecanismo no caso de precisarmos de substituir algum membro danificado”, ilustra.

O mecanismo de sinalização para a formação de novos tentáculos nas anémonas-do-mar também existe noutras espécies, incluindo humanos; contudo, este papel só tem sido estudado do ponto de vista do desenvolvimento embrionário.

O líder afirma que os investigadores propõem um “novo contexto biológico” para perceber como a ingestão de nutrientes impacta a função desta sinalização de desenvolvimento, o que pode ser relevante para “definir o papel do metabolismo para orientar a formação de órgãos durante a vida adulta”. “Anémonas-do-mar mostram-nos que é possível que os nutrientes não sejam convertidos em armazenamentos de excesso de gordura – como é o caso em todos os mamíferos -, mas sim em novas estruturas corporais”, sublinha.

Os investigadores analisaram mais de mil anémonas-do-mar individualmente para mapearem esta formação de novos tentáculos, trabalho que demorou meses.

O grupo pretende ainda investigar o papel não-convencional destas células musculares que definem a localização da formação do novo membro.

ScienceDaily/VO

ler mais