Uma investigação conduzida em Caenorhabditis elegans, uma espécie de nematódeo microscópico, vem desafiar a noção de sexo biológico como uma propriedade binária. A evidência mostra que este vermiforme é capaz de alternar entre estados sexuais quando necessário, através de uma mudança genética nas células do cérebro.

A investigação, da instituição University of Rochester Medical Center, publicada na revista científica Cell a 23 de julho, incide sobre a espécie C. elegans, cujo sistema nervoso tem sido estudado durante décadas, tendo em vasta medida aplicação ao reino animal. No que diz respeito a este vermiforme, existem machos e hermafroditas; estes últimos, embora sejam capazes de se “autofertilizarem”, também acasalam com machos, sendo considerados fêmeas modificadas.

O sexo do C. elegans é determinado por um único gene, o TRA-1. Quando o animal tem dois cromossomas X, o gene é ativado e o verme torna-se numa fêmea; quando há apenas um cromossoma X, o TRA-1 mantém-se inativo e o vermiforme torna-se num macho. Contudo, este estudo veio mostrar que afinal não é bem assim. O gene TRA-1 não está completamente silenciado nos machos, podendo ser ativado quando necessidades internas e externas se impõem como essenciais.

“Esta evidência indica que, a um nível molecular, o sexo não é binário ou estático, mas sim dinâmico e flexível”, afirmou o Prof. Dr. Douglas Portman, autor principal e docente na instituição e no Instituto de Neurociências Del Monte.

Para perceber que aspetos podem levar à mudança, é importante referir que o C. elegans macho não tem a mesma capacidade olfativa que as fêmeas no que concerne a deteção de comida. Por isso, os machos desta espécie preferem, tipicamente, procurar parceiros. Colocando-se a circunstância de estar muito tempo sem comer, o macho pode recorrer à habilidade feminina de detetar comida e atuar mais como uma fêmea. Outros casos em que o gene TRA-1 é ativado para que esta mudança ocorra é o dos jovens machos, que sendo demasiado jovens para procurar parceiro necessitam mais de um olfato mais eficiente.

Como explica o responsável, “os novos resultados sugerem que aspetos do sistema nervoso masculino podem estar a transitar para um estado mais feminino, permitindo que o comportamento masculino seja mais flexível de acordo com as condições internas e externas”.

Noutro estudo, publicado na Current Biology, uma equipa de investigadores da Universidade de Colúmbia descrevem o mecanismo molecular complexo através do qual o gene TRA-1 é controlado por cromossomas sexuais e outros inputs.

O vermiforme é o único animal cujo sistema nervoso foi completamente mapeado, possibilitando o acesso a um diagrama de ligações (connectome) que facilitam a compreensão de como os circuitos neuronais integram informação, tomam decisões e controlam comportamentos.

ScienceDaily/VO

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