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Published On: 31 Jul, 2020Tags:

A experiência médico-veterinária durante a COVID-19: um exemplo a seguir?

O Dr. Luís Montenegro aponta a decisão de não fechar portas, a formação médico-veterinária e a experiência diária com vírus como razões para o sucesso do setor veterinário durante confinamento.

Num cenário pandémico de “instabilidade, desorganização, receios e oportunismos”, vivido em diferentes setores, o domínio médico-veterinário conseguiu desempenhar o seu papel “bastante bem a nível nacional”. O ponto de partida é lançado pelo Dr. Luís Montenegro, diretor clínico do Hospital Referência Veterinária Montenegro. O responsável acredita que a experiência médico-veterinária pode ser um exemplo a seguir e garante, em relação à instituição onde é diretor clínico, que “os animais não sofreram por falta de cuidados ou atrasos neste contexto de pandemia”.

No início da pandemia, o setor da medicina veterinária, à semelhança de outros, correu o risco de ver as suas portas fechar temporariamente, situação que neste campo acabou por não se verificar. Para explicar este desfecho, o responsável refere ter sido fundamental a “primeira grande decisão” das autoridades sanitárias e do Governo de não fechar o setor. “Deram-nos diretrizes para que pudéssemos fazer um atendimento seguro, mas não nos recomendaram ou obrigaram a fechar”, realça, congratulando a medida. Tivesse a ordem sido no sentido contrário e o exercício da profissão estaria condicionado.

Uma vez tomada a decisão de manter as portas abertas, seguiram-se os desafios marcados pelas necessidades de adaptação. Segundo o especialista, o hospital e a clínica organizaram-se da seguinte forma: para cirurgias programadas e tratamentos profiláticos não estabilizados e tratamentos não urgentes recomendou-se o adiamento; já os procedimentos urgentes ou os casos que exigiam terapêutica adequada e no tempo certo, como o caso do diagnóstico oncológico, foram todos efetuados e atendidos sem atrasos.

Depois, com alguma criatividade e esforço dos membros da equipa, começaram a ser desenvolvidas novas formas de intervenção; exemplo disso foi uma medida de apoio ao domicílio. Elucida como, no Hospital Referência Veterinária Montenegro, a equipa atuou junto das pessoas pertencentes a grupos de risco ou com idades superiores a 65 anos durante o confinamento. Recomendando que não se dirigissem à instituição, as equipas iam até casa desses tutores com todo o material de proteção e, sem contacto físico, recolhiam os animais e transportavam-nos até ao hospital para tratá-los. No final, iam entregá-los. “Fizemo-lo de forma gratuita para esta população e funcionou muito bem, mas claro que nos deu muito trabalho”, afirma.

Experiência da Dona Judite Maia Moura:

 

Quando um dos seus três cães, o Matias, mostrou um comportamento estranho, a Dona Judite Maia Moura, de 78 anos, entrou em contacto com o Hospital Referência Veterinária Montenegro. Cliente regular, obteve conhecimento deste serviço durante o confinamento através da página de Facebook da instituição. Conta como a equipa se deslocou a casa dela e “não entrou em casa, nem no jardim”. Levando o Matias ao hospital, os funcionários mantiveram contacto telefónico durante os dois dias em que esteve separada do Matias. Mais tarde, quando precisou de vacinar os seus cães, o Dr. Montenegro disponibilizou-se. “Entrou de máscara, mas só no quintal. Tinha tudo preparado na mala do carro”. “Segurança” e “carinho” são as palavras utilizadas pela tutora ao recordar este serviço.

A capacidade financeira de alguns tutores “é um problema sério”, afirma o especialista. Reconhecendo que os cuidados de um animal e os tratamentos são caros – “um bom tratamento médico-veterinário é custoso” –, o Dr. Luís Montenegro acredita que a pandemia poderá ter um impacto negativo neste aspeto, exacerbando ou criando carências. E como a medicina veterinária é taxada a 23% de IVA, o diretor clínico considera que “os veterinários acabam por não ter apoio do Estado, de maneira que têm de cobrar pelos seus serviços para garantir o funcionamento das suas estruturas”.

Neste cenário – veterinários que precisam de cuidar dos animais e de cobrar pelos serviços e tutores com menor capacidade financeira –, os profissionais de saúde tentam gerir os recursos e os compromissos procurando alcançar um equilíbrio. “Aquilo que os veterinários podem tentar fazer, de maneira geral, é adaptar as práticas às possibilidades do tutor, sem deixar animais sem tratamento”. Porém, isto significa, como refere o Dr. Luís Montenegro, que técnicas mais avançadas e caras ou tratamentos mais dispendiosos muitas vezes são postos de lado.

Ainda assim, admite que haja casos de pessoas que não conseguem suportar qualquer tipo de tratamento. Nessas circunstâncias, ou há algum tipo de ajuda ou é muito difícil contornar a situação. “Vai havendo boa vontade dos veterinários, que vão tentando colmatar pelo menos aspetos relacionados com o tratamento básico”. Acrescenta ainda, exemplificando com a Câmara Municipal de Matosinhos, que algumas Câmaras, como tem sido “cada vez mais exigido pelos munícipes”, têm desenvolvido esforços no sentido de dispor recursos ao tratamento médico-veterinário e de ajudar os tutores mais carenciados para que esse tratamento seja mais acessível.

 

Dizer não ao pânico. Seriedade e serenidade como palavras de ordem.

 

Como sublinha o especialista, o atual panorama mundial não é um terreno completamente desconhecido para a medicina veterinária. O conhecimento epidemiológico proveniente de lidar com vírus de transmissão animal, suas formas de propagação, transmissão, vacinação e imunidade foi uma “ferramenta preciosa” para lidar com a presente pandemia.

Nas palavras do Dr. Luís Montenegro, esta classe profissional, para além de formação em epidemiologia – incluindo conhecimentos em áreas como peste suína africana, peste aviária, brucelose, tuberculose –, “está muito habituada a lidar com infeções víricas em animais no dia a dia, sendo que por vezes algumas se tornam endémicas nas pessoas”. Este aporte permitiu aos médicos-veterinários, perante o surto de COVID-19, “perceber o problema e as medidas internas certas a tomar para proteger as equipas e os clientes sem deixar de tratar os animais”, relata o responsável.

Na perspetiva do especialista, o balanço da experiência de adaptação até ao momento é positivo, tendo sido possível arranjar estratégias eficazes para garantir que os animais não sofressem durante o período de confinamento por falta de cuidados médicos veterinários. “Todos os que tinham de ser tratados, foram tratados”, enfatiza.

Ao debruçar-se sobre o atual contexto, o Dr. Luís Montenegro argumenta que a pandemia deve ser encarada com a maior seriedade, mas também com serenidade, pois “o resto da saúde humana não pode parar”. Ademais, considera que esta conjuntura engloba “muita gestão de interesses políticos e económicos”, pelo que se não for superada irá pagar-se uma fatura extremamente elevada. “Só vamos conseguir ultrapassar esta calamidade se tivermos serenidade e não gerarmos o pânico”, declara.

O especialista finaliza apelando à reflexão sobre “a invasão do mundo selvagem e dos ecossistemas, associada ao egoísmo humano e consumo de recursos naturais”. Décadas de recomendações da Organização Mundial de Saúde relacionadas com o projeto “Uma só saúde” revelam os riscos de estes vírus se virem a tornar cada vez mais frequentes, surgindo no mundo animal e afetando posteriormente a saúde humana. “Se não pensarmos neste conceito no futuro, podem vir a surgir pandemias ainda piores”, conclui.

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