Marta Videira, diretora clínica da Casa dos Animais, o maior centro de recolha de animais abandonados e errantes de Portugal e um serviço da Câmara Municipal de Lisboa, está em Cabo Verde a convite do Movimento Civil Comunidade Responsável (MCCR) para, entre outras atividades, participar, a 02 de outubro, num fórum para a gestão ética da população canina e felina.

Em declarações à agência Lusa, na cidade da Praia, recordou que Portugal teve um passado “muito infeliz” nesta matéria, mas que, após muita pressão por parte da comunidade civil e política, foram feitas mudanças, que resultaram num equilíbrio entre a população animal e a humana.

“Acho que teremos que caminhar sempre neste sentido, de que os animais existem, estão nas ruas por responsabilidade nossa, de uma forma direta ou indireta, e o objetivo é, uma vez que não conseguimos ter famílias para os milhares de animais que estão na rua, encontrar uma solução que a população estabilize e lentamente diminua”, propôs a médica.

Referindo que os animais têm uma esperança média de vida reduzida, Marta Videira é de opinião que, se não houver procriação, novas ninhadas e multiplicação, a população vai se estabilizando e depois vai diminuindo.

“Mas de uma forma ética, humana, que não implica o sofrimento animal, e em que os próprios incómodos que esses animais, existindo em excesso na rua, acabam por ter. Acaba por diminuir esses incómodos e haver um equilíbrio entre a população humana e a animal”, acrescentou.

Marta Videira foi convidada pelo movimento para ajudar a estabelecer um diálogo com as autarquias, para a adoção de métodos eficazes e humanas de gestão ética da população canina e felina, para eliminar a prática do abate de animais e criar uma aliança nacional nesse sentido.

Até à próxima semana, a médica portuguesa vai realizar e participar em várias atividades em Cabo verde, tendo visitas agendadas a sete municípios, nomeadamente Tarrafal, Calheta de São Miguel e Santa Cruz (Santiago), Santa Catarina, São Filipe e Mosteiros (Fogo) e Sal.

O diagnóstico vai ser apresentado num fórum para a gestão ética da população canina e felina, a ser realizado em 02 de outubro, na Assembleia Nacional, na Praia.

Do programa da missão constam ainda ações de sensibilização junto da Associação de Jornalistas de Cabo Verde (AJOC), das universidades e das escolas do país.

Segundo Maria Zsuzsanna Fortes, do MCCR, outra proposta é criar uma Aliança Nacional para a Gestão Ética da População Canina e Felina, englobando as câmaras municipais e seus parceiros locais, associações e a sociedade civil.

“Acreditamos que, através de uma aliança para esse objetivo, conseguiremos ganhos significativos, vamos poder ajudar a diminuir o número de animais nas ruas e abandonados, de forma ética”, disse, indicando a esterilização massiva, o registo obrigatório e a posse responsável como três aspetos que precisam ser introduzidos no arquipélago cabo-verdiano.

Estas atividades acontecem pouco mais de três meses após notícias a darem conta que os cães errantes estavam a ser apanhados e abatidos por eletrocussão na lixeira municipal da Praia, um método que foi bastante criticado na altura por associações de bem-estar animal locais e internacionais que defenderam outras políticas de controlo da população canina.

No mês de agosto, a Câmara da Praia lançou uma campanha de controlo de reprodução e circulação de cães em vários bairros, com o objetivo de castrar 600 animais em 20 dias.

Para Maria Fortes, as campanhas são muito positivas, mas entendeu que a esterilização deve ser permanente e acessível a toda a população, uma vez que fora das campanhas tem um custo elevado, o que muitas vezes inibe a adesão das pessoas.

O MCCR é um movimento da sociedade civil que tem levado a cabo um conjunto de ações para apoiar na gestão ética e sustentável da população canina e tem sido uma voz ativa e interventiva para o bem-estar animal e contra os maus tratos no país.

SO/Lusa

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