Os cães conseguem detetar, através do cheiro, quando os seus donos estão perante uma crise epilética. Esta é a mais recente conclusão do estudo “Cães demonstram a existência de um odor típico de crises epiléticas nos humanos”.

O estudo, publicado no Scientific Reports, começa por explicar que as alterações no odor do corpo humano são como sintomas de determinadas doenças. No entanto, apenas recentemente se comprovou que o odor varia consoante o problema de saúde.

Os cães e a sua capacidade de deteção de doenças

Devido às suas elevadas habilidades olfativas, os cães têm sido usados ​​para detectar cancro da mama ou do pulmão, diabetes ou doenças renais com algum sucesso, embora os resultados às vezes sejam contraditórios, talvez devido à variedade de procedimentos de treino (por exemplo, odor de urina, de suor ou de respiração)”, pode ler-se no estudo.

Já no cancro colorretal, o melhor teste não invasivo é um exame de sangue oculto nas fezes, no qual a sensibilidade chega aos 43,8% para a neoplasia colorretal, enquanto a sensibilidade do olfato canino para as amostras de respiração foi de 91%, o que significa que os cães podem fornecer um método de triagem bastante mais bem sucedido e ainda menos invasivo. Também a designada deteção médica – a detecção de alterações fisiológicas temporárias -, como alterações glicémicas ou enxaquecas, foi demonstrada em cães treinados, permitindo ao paciente antecipar, em minutos ou horas, as crises que se aproximavam.

A Epilepsia

“Uma antecipação semelhante seria muito importante para os pacientes epilépticos, que poderiam então procurar um ambiente mais seguro antes de uma convulsão”.

A epilepsia é um distúrbio neurológico caracterizado por convulsões recorrentes que, por sua vez, podem ser classificadas em vários tipos e que implicam vários sintomas, podendo estes surgir de modificações genéticas ou estruturais no cérebro, infeções cerebrais, lesões na cabeça, acidentes vasculares cerebrais ou tumores. Existem ainda diversos transtornos psiquiátricos comórbidos (duas ou mais doenças que, em conjunto, podem agravar o quadro clínico) que são comumente associados à epilepsia, como a ansiedade e a depressão.

Há relatos que sugerem que os cães de estimação alertam os seus donos epiléticos sobre uma convulsão iminente, mas os sinais que os levam a ter essa perceção são ainda desconhecidos. No entanto, há associações e instituições que têm focado o seu trabalho no treino de cães na deteção de odores corporais, mais especificamente na respiração e no suor do individuo

O estudo “Cães demonstram a existência de um odor típico de crises epiléticas nos humanos”.

Nesta investigação, a equipa científica acredita haver “um componente olfativo específico para convulsão que seria comum a diferentes indivíduos e tipos de convulsões”. Testaram a hipótese ao usar um protocolo validado que consistia em apresentar a cães treinados odores complexos (respiração e suor) obtidos de cada paciente epiléptico durante uma convulsão, fora de uma convulsão (numa atividade calma) ou durante sessões desportivas (para testar um possível suor).

Assim sendo, os investigadores testaram três hipóteses:

  1. Se os cães são capazes de discriminar uma amostra convulsiva entre os odores obtidos noutros contextos;
  2. Se aquela não seria uma mera discriminação do suor;
  3. Se os cães podem detetar um odor convulsivo de diferentes pacientes, o que implica existirem elementos variáveis comuns a diferentes tipos ou causas de epilepsia.

Para tal, contaram com a participação de cinco cães castrados (três fêmeas e dois machos de várias raças), treinados para responder de uma maneira particular (aproximando-se e ficando em cima da lata que continha o odor-alvo, ou seja, que tivessem sido treinados para ter um “comportamento de resposta”) a odores corporais de pacientes com diferentes doenças ou distúrbios (diabetes, ansiedade ou epilepsia).

Havia, em cada ensaio, sete odores diferentes em cada lata: uma de uma convulsão, duas de uma sessão de desporto, quatro bebidas de forma aleatória em dias diferentes durante a atividade calma. As amostras foram de 5 pacientes com diferentes tipos de epilepsia.

Os cães demonstraram reagir com sucesso à lata de convulsão em menos de 5 minutos, com uma taxa de sucesso de 67 para 100%, e uma taxa de sucesso de 95 a 100% no caso de não se tratar de doentes epiléticos.

Estes resultados demonstram que estas pessoas podem ter um maior controlo e independência sobre a sua doença, uma vez que podem tomar medidas, antecipadamente, como pedir ajudar ou através de medicação especificamente prescrita para estes casos.

Uma das autoras do estudo, Amélie Catala, da Universidade de Rennes, em França, afirmou que “existem casos de pessoas que dizem que os cães os conseguem avisar antes de terem uma convulsão, mas não há evidências [suficientemente] fortes na literatura cientifica”. Aliás, fez questão de salientar que ainda não é claro se os cães se apercebem dos casos através de pistas visuais, mudanças comportamentais ou olfativas, e se essas pistas são ou não as mesmas conforme os doentes.

Uma porta-voz da associação Epilepsy Action alega que já existem pessoas que confiam nos seus animais de estimação para prever as futuras crises epiléticas.

“Ainda não sabemos se o fazem através do cheiro ou de outro sentido”, disse. “Por isso mesmo é que este estudo é interessante e pode ser o próximo passo para percebermos como é que os cães podem ajudar pessoas que têm crises de epilepsia”.

De acordo com Rita Howson, diretora executiva da associação de treino de cães para ajudar pessoas com doenças ou distúrbios, Support Dogs,

“os cães são bons observadores de humanos. Sabem o que vai acontecer quando pegamos na trela. O comportamento deles também pode mudar quando apanham pistas mais subtis — talvez até um cheiro ou uma mudança no comportamento quando o dono está prestes a ter uma convulsão”.

Erica Quaresma

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