A captura e matança de tubarões para exposição aos turistas, que não hesitam em pagar por uma fotografia perto do “rei” dos predadores, preocupa as organizações que alertam para a necessidade urgente da proteção desta espécie em Cabo Verde.

O Movimento Contra a Poluição de Cabo Verde (MCPCV) colocou na sua página da rede social Facebook imagens de vários tubarões anequim/mako (Isurus oxyrinchus) e de raias-mobula, espécies classificadas como em risco de extinção, esquartejados e expostos no pontão de Santa Maria, na ilha do Sal.

Em redor dos animais, amontoam-se os turistas que, empunhando telemóveis, registam o momento em que os animais são transportados e as suas feridas expostas no pontão. Alguns, em troca do “espetáculo”, oferecem dinheiro aos pescadores que veem naquela cena uma forma de angariar rendimento.

O MCPCV sublinha que “as duas espécies são altamente vulneráveis à pesca intensiva devido a seu crescimento lento e a reprodução de poucas crias”.

Para Zeddy Seymour, diretor do projeto MarAlliance – aliados para a Fauna Marinha em Cabo Verde, esta situação regista-se na pesca artesanal, embora essa não seja a maior ameaça, uma vez que se tratam de espécies pelágicas (do mar aberto), onde a pesca industrial tem autorização para proceder à sua captura, mediante acordo entre a União Europeia e Cabo Verde.

Por esta razão, as organizações que se dedicam ao estudo e conservação dos animais marinhos em Cabo Verde apostam na classificação das espécies como protegidas por lei, uma vez que dessa forma a sua captura irá ser proibida, como aconteceu com as tartarugas, com resultados positivos visíveis.

Apoiam, por isso, a intenção do Governo cabo-verdiano de incluir o tubarão-anequim no apêndice II de CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção).

Zeddy Seymour recordou à agência Lusa que a diminuição do número de tubarões e raias levou a que a sua classificação passasse de vulnerável a em perigo de extinção.

Trata-se de “uma espécie que demora 17 anos a atingir a maturidade”, disse, afirmando que uma das espécies que foi recentemente mostrada esquartejada no pontão de Santa Maria, na ilha do Sal, não deveria ter mais de 12 anos.

Sobre a cumplicidade dos pescadores nesta situação, o diretor do projeto MarAlliance considera-os “oportunistas” e, sabendo da vontade dos turistas de tirarem uma fotografia com um animal considerado o “rei” dos predadores, não hesitam em mostrar estes animais, mortos e esquartejados.

Em troca deste momento para mais tarde recordar, alguns turistas oferecem dinheiro aos pescadores que veem nesse pagamento um meio de aumentar o seu baixo rendimento, disse.

Se esta espécie já estivesse classificada como protegida, como o tubarão-martelo, os pescadores poderiam ser multados pelas autoridades, como aconteceu recentemente com um pescador que capturou um destes animais na ilha de Santiago e mostrou-o nas redes sociais, tendo sido posteriormente identificado e multado.

Para Zeddy Seymour, a “má fama” dos tubarões promove este interesse dos turistas que não resistem a se aproximar para os observar, ainda que feridos, mutilados e mortos.

Por esta razão, o ambientalista defende iniciativas que sensibilizem os turistas do perigo que estes animais atravessam e da sua importância nos mares, uma vez que se trata de um predador “com um papel chave no ecossistema”.

Em relação ao seu consumo, existem relatos de pescadores que comem e vendem para particulares e restaurantes a carne de tubarão, uma prática perigosa para a saúde pois, como explicou Zeddy Seymour, no organismo destas espécies existem metais pesados.

No início do ano, as autoridades cabo-verdianas anunciaram a apreensão, no cais da cidade da Praia, ilha de Santiago, de dois tubarões de uma espécie ameaçada de extinção, com 500 quilogramas no total, da espécie Albafar (Hexanchus griseus).

LUSA

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