Porque se coçará um gato??

Diana Ferreira

Diana Ferreira

Médica Veterinária

DVM, MSc, MRCVS, Dip. ECVD, EBVS®

Animal Health Trust, Newmarket, Reino Unido

OneVet Group

Chegar à causa por detrás da comichão nos gatos é um processo normalmente desafiante. Nos gatos, a comichão pode estar associada a diferentes causas, para além de poder manifestar-se de várias formas, por vezes difíceis de interpretar.

Chegar à real causa da comichão nos gatos é um trabalho que se revela muitas vezes moroso e que obriga, por isso, a uma relação de grande confiança entre o tutor e o médico veterinário.

Causas de comichão nos gatos

Nos gatos, tal como nos cães, as doenças que mais frequentemente resultam em comichão são as alergias e as doenças parasitárias. Num estudo que analisou 502 gatos com comichão, 29% tinha dermatite alérgica à picada de pulga (DAPP), 20% dermatite de tipo atópica (nos gatos chamada de “dermatite alérgica não à picada de pulga nem alimentar” – DANPPNA), e 12% alergia alimentar (AA).4 Outras causas de alergia que se deve, no entanto, ter também em conta, é a alergia à picada de mosquito.

Seis por cento de todos os casos de comichão, no estudo anteriormente mencionado, representavam causas parasitárias. Dentro das causas parasitárias incluem-se a infestação por pulgas (pulicose), sarna por Notoedres cati (sarna notoédrica), ácaros auriculares (Otodectes cynotis e Demodex cati), sarna por Demodex gatoi, infestação por Cheyletiella blakei (cheiletielose) e Trombicula.

Outras causas menos frequentes são a dermatofitose (“tinha”), o pênfigo foliáceo (PF) (doença auto-immune), o linfoma epiteliotrópico cutâneo (LEC) (tumor de pele) e as reações adversas a fármacos (RAF).

Características da história clínica que podem ajudar a determinar a origem da comichão

Algumas características da história do animal e da sua sintomatologia são muito sugestivas e ajudam a determinar a origem da comichão.

  1. Idade de início dos sintomas – gatinhos com menos de 6 meses de idade são mais frequentemente afetados por doenças parasitárias e “tinha”, enquanto pacientes jovens ou de meia-idade têm maior probabilidade de ser alérgicos. Mais de 75% dos gatos alérgicos têm sintomas entre os 6 e os 24 meses de idade.
  2. Sazonalidade – sintomas que ocorrem sempre numa mesma época do ano são sugestivos de doenças alérgicas sazonais de origem ambiental, ou parasitárias;
  3. Estilo de vida – animais que têm acesso ao exterior estão mais expostos a parasitas e doenças infeciosas;
  4. Outros animais da casa ou tutores afetados – a “tinha”, cheyletielose, sarna otodécica (Otodectes cynotis) e sarna notoédrica pode afetar os animais em contacto, bem como os seus tutores. A demodecose por gatoi afetará apenas os gatos em contacto, já que são específicos da sua espécie hospedeiro;
  5. Outras doenças ou sinais não dermatológicos concomitantes, como por exemplo, diarreia crónica, vómito crónico, fezes moles e aumento na frequência de defecação podem indicar uma alergia alimentar.

Muitos animais não exibem uma coceira evidente, como tal, os tutores não conseguem associar que os comportamentos que o animal exibe se devem a comichão. Lambedura excessiva, mordiscar e puxar o pêlo ou esfregar-se com frequência em objetos podem ser comportamentos de comichão. Outros sinais que poderão fazer-nos suspeitar de comichão são, por exemplo, a presença de tufos de pêlo nos locais onde o gato gosta de descansar, pêlos presos nos dentes, vómito frequente de bolas de pêlo ou pêlo nas fezes.

Lesões cutâneas que se associam à comichão

Nos gatos, existem várias lesões associadas à comichão, no entanto, nenhuma é característica de apenas uma doença, podendo uma lesão ocorrer associada a diferentes doenças. As lesões que podem ocorrer num gato com comichão são:

  1. Alopecia parcial bilateral simétrica;
  2. Escoriações da cabeça e pescoço;
  3. Dermatite miliar – caracterizada por pequenas pápulas eritematosas com uma pequena crosta sobreposta;
  4. Placas eosinofílicas – lesões em placas, elevadas, bem delimitadas, eritematosas, erosionadas ou ulceradas, presentes mais frequentemente no abdómen ventral, mas que também podem ocorrer na face medial das coxas, ou outras zonas.

Parasitas cutâneos

Pulgas

Nos gatos, a dermatite alérgica à picada de pulga pode estar associada a uma série de sinais clínicos. Desde comichão, a dermatite miliar, alopecia bilateral simétrica, etc. Nestes, podem observar-se fezes de pulga ao exame da pele do animal, especialmente na região dorso-lombar.

Cheyletiella blakei

A cheyletielose é causada por pelo ácaro superficial Cheyletiella blakei. A sua sintomatologia é variável e tanto pode resultar num quadro de comichão intenso como não estar associada a prurido. Os gatos afetados desenvolvem uma descamação seca dorsal e com o avançar da infestação pode haver perda de pêlo associada e dermatite miliar. A condição é por vezes chamada de caspa andante, já que as escamas brancas movem-se pela ação dos ácaros.

Demodecose felina

A demodecose felina é causada por várias espécies de Demodex: (1) Demodex cati, (2) Demodex gatoi e (3) Demodex felis. A única destas espécies reconhecida como resultando num quadro clínico claramente pruriginoso é o D. gatoi. Estes são ácaros que vivem nas camadas mais superficiais da pele. A demodecose associada a D. gatoi, para além de resultar em comichão, é também contagiosa. Gatos afetados apresentam uma alopecia parcial auto-induzida que pode ocorrer no tórax lateral, abdómen ventral e lateral e face medial das coxas. A pele pode estar eritematosa e descamada.

Sarna notoédrica por Notoedres cati

A sarna notoédrica manifesta-se com lesões muito pruriginosas, que aparecem primeiro na face externa dos pavilhões auriculares. Estas lesões rapidamente se alastram para afetar a face e pescoço e com a progressão da infestação há também afeção das patas e da parte caudal do animal. Isto provavelmente resulta dos hábitos de limpeza do gato e do facto de dormir numa posição curvada. Com a progressão da doença o prurido fica cada vez mais intenso e a pele torna-se espessa e fica coberta por crostas bem aderentes.

Trombicula autumnalis

Os sinais clínicos associados a esta infestação são variáveis. A picada deste ácaro resulta normalmente numa irritação grave e no aparecimento de lesões pápulo-crostosas intensamente pruriginosas, mas também pode resultar em lesões que não estão associadas a comichão. Nos gatos, os ácaros podem ser encontrados no interior e em torno das orelhas e são facilmente detetados devido à sua intensa cor laranja-avermelhada e aderência firme à pele.

Otoacariose por Otodectes cynotis

A otite por O. cynotis é muito comum. Uma vez que resulta em reações de hipersensibilidade, pode ocorrer que um número muito reduzido de ácaros possa resultar num quadro de otite externa exuberante. Estes ácaros são contagiosos, e para além disso não são específicos de espécie, o que quer dizer que podem passar entre cães e gatos. Numa casa com múltiplos animais, há que assumir que todos os animais em contato estão infetados. Para além disso, podem afetar também os tutores, resultando numa dermatite papular transitória.

Clinicamente está associado a um cerúmen seco, de cor muito escura, parecendo borras de café. O quadro clínico pode ser variável, especialmente em gatos. Alguns gatos apresentarão grandes quantidades de cerúmen sem sinais de desconforto auricular, enquanto outros apresentam comichão do ouvido intensa com uma quantidade mínima de cera. Estes ácaros podem ser encontrados em outras áreas do corpo, especialmente no pescoço, região dorso-lombar e cauda (otoacariose ectópica). Neste caso, os animais podem apresentar uma dermatite pruriginosa. Nos gatos, pode haver alopecia autoinduzida associada a este quadro.

Otoademodecose por Demodex cati

O Demodex cati é mais frequentemente associado a dermatite e lesões cutâneas. No entanto, pode ser causa de otite externa e resultar num quadro de comichão auricular e da cabeça intensa. De ter em atenção que este ácaro está normalmente associado a doenças imunodepressoras subjacentes e a doenças como a sida e leucemia felinas.

Dermatofitose

A dermatofitose nem sempre resulta em comichão, no entanto, esta pode estar presente e podem ocorrer também descamação e menos frequentemente a dermatite miliar. O sinal clínico mais consistente é uma lesão circular focal ou multifocal, alopécica e descamativa.

Alergias

As alergias mais comuns são as ambientais, ou seja, aos ácaros do pó, pólens e menos frequentemente a fungos do ambiente. Outra alergia comum é a resultante de picada de pulga. A alergia alimentar parece ser menos frequente. Em todas estas alergias, pode haver dermatite miliar, prurido da cabeça e pescoço, alopecia auto-induzida e lesões do complexo granuloma eosinofílico com placas, granulomas e a úlcera indolente do lábio superior do gato.

Outra alergia menos comuns é a hipersensibilidade à picada de mosquito. Esta patologia é sazonal e os animais afetados têm normalmente acesso ao exterior. As lesões ocorrem mais frequentemente na face, ponte nasal, e pavilhões auriculares com comichão, pápulas e por vezes crostas e escoriações.

Conclusão

Nos gatos, são inúmeras as doenças que podem resultar em comichão e determinar a causa primária pode revelar-se um desafio.

É por este motivo que devemos deixar a cargo do médico veterinário a realização dos testes de diagnóstico apropriados de modo a que se identifique o mais rapidamente possível a causa do prurido. O objetivo final é a gestão terapêutica da sintomatologia, bem como da doença subjacente em causa de forma eficaz.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

  1. Favrot c, Steffan J, Seewald W et al: Establishment of diagnostic criteria for feline non flea induced hypersensitivity dermatitis. Vet Dermatol 2012; 23(1):45-50.
  2. Favrot C. Feline non-flea induced hypersensitivity dermatitis – Clinical features, diagnosis and treatment. Journal of Feline Medicine and Surgery. 2013. 15, 778–784.
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