Em entrevista à Lusa, Sérgio Ávila, investigador do CIBIO-InBIO, explicou que o estudo, publicado na revista Biological Reviews, a 4 de janeiro, culminou num “novo modelo teórico” que teve como propósito “perceber qual o impacto das alterações climáticas globais na evolução das espécies marinhas e terrestres”.

“O meio marinho tem sido muito mal explorado e, sendo a nossa especialidade a biogeografia marinha, o que fizemos ao longo dos últimos dez anos foi estudar as espécies que vivem na zona litoral, ou seja, entre as marés e os 50 metros de profundidade”, começou por contar o investigador.

A equipa, da qual fizeram parte mais de 80 investigadores internacionais, calculou e analisou a variação do nível das águas oceânicas durante os últimos 150 mil anos, em 11 arquipélagos e ilhas vulcânicas no oceano Atlântico (localizadas a 50 graus Norte e Sul do Equador).

“Ao utilizarmos as curvas dos níveis das águas, percebemos que à medida que entravamos numa glaciação o nível da água do mar descia e a temperatura também o fazia. Desta forma, nas ilhas oceânicas, a área terrestre aumentava e o número de espécies que a ilha albergava também”, esclareceu.

Para além da variação do nível dos oceanos, os investigadores analisaram a idade geológica e o tamanho dos arquipélagos, o que permitiu concluir que “os padrões utilizados no meio marinho e no meio terrestre são opostos”.

“Quanto maior for a idade geológica da ilha, maior vai ser a plataforma insular que a rodeia e que se forma por ação erosiva das ondas do mar. Durante as épocas interglaciais, verificamos que esta plataforma é máxima e que o número de ‘habitats’ disponíveis é maior”, disse.

Segundo Sérgio Ávila, o estudo permitiu também constatar que “as comunidades marinhas são bastante resilientes”, isto porque conseguem movimentar-se e colonizar outros arquipélagos durante os períodos glaciais e interglaciais.

“Há espécies que hoje em dia existem em Cabo Verde, mas que não existem nas Canárias, Madeira ou Açores. No entanto, quando há 120 mil anos a média da temperatura das águas na região dos Açores era superior quase três graus, estas espécies coabitavam lá. Portanto, estamos perante uma subida em latitude provocada pelo aquecimento global”, exemplificou.

Assim, as espécies marinhas, ao “subirem e descerem em latitude” durante os períodos glaciais, conseguem “aumentar a sua distribuição geográfica” e não serem afetadas pelas alterações climáticas globais.

Para o investigador, o artigo, denominado “Towards a Sea-Level Sensitive dynamic model: impact of island ontogeny and glacio-eustasy on global patterns of marine island biogeography”, é, ao complementar outros trabalhos sobre biogeografia insular, “um contributo produtivo”, porque vai permitir que a comunidade científica “teste novas ideias” e apresente “novas diretrizes”.

LUSA

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