Vet-Online (VO) | Quais as principais doenças cardíacas nos cães e nos gatos?

Manuel Monzo (MM) | Depende da população, da área geográfica ed as espécies, pois existem doenças típicas de uma determinada raça e do tamanho do paciente. Por exemplo, os cães pequenos sofrem mais de doença mitral, os cães grandes de cardiomiopatia dilatada (CMD), os gatos de cardiomiopatia hipertrófica, restritiva ou dilatada.

As generalizações são perigosas por simplificarem situações. Contudo, são um adequado ponto de partida para a triagem.

VO | Existem tratamentos disponíveis para todas essas doenças?

MM | Infelizmente, nem todas as doenças congénitas têm tratamento. Contudo, há 5 ou 6 anos que dispomos de procedimentos intervencionistas minimamente invasivos para a resolução das doenças congénitas que têm solução.

No que diz respeito a outras doenças cardíacas sem cura, estas têm cuidados e medicação sintomática, disponível em Portugal com um custo suportável e acessível para o tutor.

VO | Numa primeira consulta, como é feita a avaliação do animal?

MM | A primeira avaliação é sempre feita pelo médico generalista, que é essencial na triagem e referenciação dos casos.

A história clínica e o exame físico, que inclui a auscultação, são fundamentais, podendo, posteriormente, serem complementados com estudo radiográfico e/ou eletrocardiograma.

Reunidas estas informações e havendo o consentimento do tutor poderá ser marcada uma consulta de cardiologia, onde se realiza uma ecocardiografia, um Holter ou outros exames que se considerem necessários.

VO | A incidência de doenças cardíacas varia muito entre cães e gatos?

MM | Varia essencialmente devido a fatores raciais e de interespécie. O tamanho nos cães é bastante determinante para o desenvolvimento de certas doenças cardiovasculares. Nos gatos, existem raças mais predispostas a desenvolver cardiomiopatias, associadas à manipulação genética inerente à criação.

VO | No caso dos cães, existem raças com maior risco de desenvolver problemas cardiológicos?

MM | Existem. Poderíamos dividir em dois grupos: raças com tendência para terem doenças congênitas e; raças propensas a desenvolver CMD. Neste último grupo estariam todas as raças de grande porte, à exceção do Cocker e à forma juvenil do Cão de Água português.

Mas também se verificam outras patologias para estas raças. No caso do Boxer ou Dobermann, para além de CMD, podem apresentar desordens de ritmo como a doença arritmogénica do ventrículo direito, assim como o Serra da Estrela com tendência para a fibrilação atrial.

VO | Nos humanos existem fatores de risco cardiovascular como o tabagismo, por exemplo. No caso dos animais, quais são os principais fatores?

MM | Os fatores de risco são essencialmente raciais e familiares, associados a consanguinidade, mas, tanto quanto sei, não existem fatores associados ao estilo de vida. A obesidade não determina o desenvolvimento de uma doença, embora tenha impacto na eficácia dos cuidados e no prognóstico.

VO | Quais são as principais novidades na Cardiologia Veterinária… E os desafios?

MM | Há cerca de 3 ou 4 anos que não têm aparecido novos estudos e fármacos, embora se verifique uma maior sistematização na classificação e estadiamento das doenças, o que nos leva a uma maior eficácia no tratamento das mesmas.

Nos últimos anos tem sido possível ganhar sensibilidade no diagnóstico e maneio da doença, verificando-se uma evolução em termos de resolução de doenças cardíacas congénitas por intervencionismo. A utilização desta técnica continua a estar longe do ideal, mas vai crescendo o número de pacientes que são submetidos à mesma em Portugal. O recurso ao Holter como meio diagnóstico de arritmias também tem vindo a aumentar embora de uma forma muito lenta, mas o futuro parece promissor.

Nas raças de grande porte, destaca-se o desenvolvimento de protocolos profiláticos e despiste precoce de cardiomiopatia dilatada, assim como das arritmias associadas a esta doença em raças como Doberman ou Doxer.  Nos gatos o desafio continua a ser a diferenciação entre as diferentes cardiomiopatias felinas, o que dificulta o diagnóstico, a triagem e a restrição na reprodução de espécimes afetados.

Em termos de tratamento, é necessária a elaboração de estudos que permitam desenvolver medidas profiláticas que atrasem a evolução dos quadros clínicos mais agravados. No que toca às arritmias ainda estamos a “arranhar” o diagnóstico e encontramo-nos limitados ao tratamento farmacológico; não interventivo. São muitos os desafios.

VO | Como caracteriza a evolução da Cardiologia Veterinária em Portugal?

MM | Lenta, mas progressiva. A quantidade de diagnósticos de patologias cardíacas, assim como de doenças respiratórias está a aumentar a olhos vistos tendo em conta o número de exames que se estão a realizar e de colegas que se estão a formar na área. Esta é uma realidade transversal a todas as áreas da Medicina, quanto mais se sabe, mais se pesquisa e mais se encontra.

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