VO –  Quais as doenças mais comuns nos cães e nos gatos?

DF – A doença dermatológica que mais frequentemente é motivo de consulta, no cão e no gato, é a dermatite atópica (ou alergia ambiental).  É uma doença alérgica, frente a alergénios ambientais, como os ácaros do pó ou pólenes.

Nestes animais, a comichão é o sinal clínico por excelência, resultando em inflamação da pele e outras lesões como crostas ou “borbulhas”.

No cão, também são muito frequentes as otites.

VO –  E quais são as mais graves?

DF – As doenças mais graves são as auto-imunes, como o pênfigo foliáceo que é a mais frequente nos cães e nos gatos deste tipo. Também as doenças neoplásicas, como por exemplo o linfoma cutâneo, representam doenças graves. Estas patologias implicam a realização de tratamentos que podem ter efeitos adversos importantes e, para além disso, a resposta de cada animal ao tratamento é variável, tornando o prognóstico reservado em muitos casos.

As reações adversas a medicamentos podem também resultar em quadros clínicos que, sendo graves, podem comprometer a vida do animal.

VO –  E os principais parasitas?

DF – Os principais parasitas que podem resultar em doença cutânea são as pulgas. No entanto, com a crescente informação dos tutores e aumento de moléculas disponíveis para o maneio destas infestações, acaba por ser um problema cada vez menos comum.

A sarna sarcóptica é também um problema parasitário comum. A infestação com os parasitas implicados nesta patologia pode afetar também os humanos, bem como outros animais em contacto, e resulta num quadro clínico pruriginoso e lesional que pode ser grave.

Nos cachorros e gatinhos também são frequentes as infestações por Otodectes cynotis, um parasita que infesta o ouvido, resultando em otites nos animais jovens.

Para além disso, são também frequentes as sarnas demodécicas em cães, provocadas por um parasita que é habitante normal na sua pele e que pode cuasar lesões como falta de pêlo e seborreia.

Dra. Diana Ferreira, Presidente da Sociedade Portuguesa de Dermatologia Veterinária

VO –  Existe o tratamento disponível e eficaz para todas essas patologias?

DF – Felizmente, sim! No caso dos problemas parasitários há atualmente uma vasta gama de produtos que são altamente eficazes para o tratamento e controlo de praticamente todos os ectoparasitas responsáveis por doença cutânea.

Nos casos das alergias, as opções terapêuticas são múltiplas hoje em dia, no entanto cada tratamento é adaptado e específico para cada caso, já que as respostas aos tratamentos podem ser bastante diferentes entre animais.

O mesmo passa-se um pouco com as patologias auto-imunes. Embora sejam várias as opções terapêuticas, o sucesso das mesmas depende de cada animal e da gravidade da sua patologia.

VO – Como é feita a avaliação clínica do animal numa primeira consulta?

DF – A primeira consulta de dermatologia é a que demora sempre mais tempo. Em média é feita em uma hora. Começa-se por reunir toda a informação relativa ao animal e à sua doença de pele. É depois realizado um exame físico para determinar o estado geral do animal e, por fim, o exame dermatológico em que se analisa toda a pele e determina-se o tipo de lesões e sua distribuição. Também os ouvidos são do âmbito da dermatologia, como tal, são também examinados.

O passo seguinte consiste em obter as amostras adequadas das lesões visíveis, que são analisadas no momento, através de um microscópio. Se necessário, são recolhidas também outras amostras para a realização de testes laboratoriais, como culturas bacterianas, análises sanguíneas, testes de alergia ou de despiste de doenças infeciosas.

VO – Quais os principais cuidados que devemos ter com a pele dos animais?

DF – Um animal que não tem patologia cutânea ou de ouvidos não precisa de muitos cuidados específicos. O banho de manutenção, para remover a sujidade, e as escovagens, para remover o pelo morto, devem ser feitos de tempos a tempos para que a pele e pelo do animal estejam limpos e saudáveis.

Ao contrário dos cães saudáveis, os cães alérgicos, necessitam de banhos mais frequentemente com produtos hidratantes ou até mesmo antissépticos, em algumas ocasiões, de modo a manter a pele saudável e hidratada.

O mesmo aplica-se aos ouvidos. Enquanto que um cão saudável não precisa de limpezas de ouvido, um cão com tendência a ter otites beneficia de lavagens de manutenção para diminuir a frequência das mesmas.

É extremamente importante, também, manter as desparasitações externas em dia, de modo a evitar infestações e problemas cutâneos a elas associados.

VO – E que cuidados devemos ter em consideração relativamente ao banho? É seguro usar champôs e sabonetes? Quais os produtos mais indicados?

DF – Os champôs de uso veterinário são seguros e adequados para o banho fisiológico. Para o banho normal do cão devem ser sempre escolhidos champôs fisiológicos de uso veterinário. Um bom champô fisiológico que possa ser utilizado para todos os fins deve ter um pH adequado à pele do cão, assim como  ingredientes naturais na sua base, com uma boa capacidade de lavagem do pêlo e um cheiro agradável.

Atualmente já começam a aparecer também sabonetes. Também estes, se adequados ao pH da pele do cão, podem ser muito úteis.

VO – A incidência de patologias dermatológicas difere muito entre gatos e cães?

DF – Difere algo, sim. Por exemplo as otites são muito mais comuns em cães que em gatos; a demodecose nos gatos é uma patologia rara, ao contrário do que acontece no cão. No entanto, noutras patologias, como as alérgicas, podemos ver igual número de gatos e cães afetados.

A apresentação clínica também pode ser bastante diferente entre as mesmas patologias nos cães e gatos. Os gatos, por norma, representam clinicamente um maior desafio diagnóstico por poderem apresentar quadros clínicos dermatológicos semelhantes em diferentes patologias.

VO – Relativamente aos cães, quais as raças que sofrem mais problemas dermatológicos?

DF – Sem dúvida que os Bulldogues franceses são das raças mais comuns na consulta de dermatologia. Têm predisposição genética para a dermatite alérgica e como tal são frequentes os casos de alergia (e suas consequências, como otites, infeções cutâneas, etc) nestas raças.

Também os Labrador retriever, Cocker spaniel e Pastor alemão são raças predispostas para problemas alérgicos e, como tal, clientes frequentes da dermatologia!

VO – Uma das doenças que gera maior preocupação entre os donos é a dermatite atópica. Quais são os principais sintomas?

DF – A comichão é o principal sintoma. Nos cães, a comichão resulta em inflamação da pele e no desenvolvimento de lesões como crostas, borbulhas, seborreia e mau cheiro da pele. Os cães afetados lambem e mordiscam as patas e o abdómen, esfregam a cara, coçam o tronco e as axilas e têm normalmente as orelhas inflamadas e, consequentemente, otites.

Devido à inflamação constante, os cães com dermatite atópica têm grande propensão para desenvolver infeções da pele, sendo este, também, um problema muito frequentemente observado nos cães atópicos. Neste caso há o desenvolvimento de pequenas lesões crostosas, com perda de pêlo acentuada e descamação.

Nos gatos a apresentação pode ser mais variada, mas inclui quase sempre a comichão, por vezes direcionada apenas para uma região como a cabeça e pescoço, e por vezes manifestando-se como um excesso de lambedura no abdómen, ou direcionado a uma zona especifica do corpo (face interna das coxas, dorso, cauda)

VO –  – Como é feito o diagnóstico? E o tratamento?

DF – Nos casos de dermatite atópica, o diagnostico é clínico e por exclusão. Ou seja, têm que ter uma apresentação clínica compatível e têm que, nestes casos, excluir-se todas as patologias que podem resultar num quadro de comichão, como diferentes parasitoses e a alergia alimentar. Nos gatos, as infeções fúngicas também podem resultar em comichão, e por isso, tem que se descartar este diagnóstico.

Para o tratamento da alergia há várias opções. Infelizmente é uma doença que não tem cura e é crónica e, por isso, requer um controlo durante toda a vida do animal.

Uma das opções mais importantes é a vacina de alergias. Esta é formulada especificamente para o animal com base em resultados de testes de alergia realizados na pele ou em sangue. A sua eficácia é, no entanto, muito pouco previsível, tendo que se realizar paralelamente um tratamento para controlo da inflamação.

Atualmente há várias opções de tratamentos anti-inflamatórios, imunomoduladores e antipruriginosos para os cães e gatos, para que a sintomatologia esteja controlada, contudo, não há uma fórmula e cada animal necessita da sua abordagem individualizada para o melhor controlo da doença.

Para além disso, há uma série de abordagens adjuvantes que devem ser adotadas, como banhos, dietas e suplementos, que têm como objetivo, melhorar a barreira cutânea e prevenir as recaídas frequentes.

VO – Como caracteriza a evolução da Dermatologia Veterinária em Portugal?

DF – Felizmente, no nosso país, temos conseguido acompanhar de certa forma os saltos de inovação a nível terapêutico que têm estado a ocorrer. O facto de termos acesso aos fármacos mais recentes e inovadores do mercado exige que se tenha um melhor conhecimento sobre as patologias e problemas dermatológicos que estão associados. E, portanto, a comunidade veterinária começa a estar mais e melhor formada para abordar pelo menos as patologias dermatológicas mais comuns.

Temos também profissionais ao mais alto nível, que fazem investigação de relevo internacional e que nos permitem ter acesso a informação de qualidade, assim como trabalhar com base na evidência científica.  Todos estes saltos estão a impulsionar a dermatologia, a despoletar uma maior e mais profunda curiosidade, e desta forma abrem-se portas a mais formações de qualidade e a um melhor desempenho dos profissionais ao exercício da dermatologia.

Também os tutores, por estarem mais informados, estão a exigir um melhor desempenho nesta área, igualmente impulsionada pela procura de um serviço especializado.

VO –  A Sociedade Portuguesa de Dermatologia Veterinária foi fundada no início deste ano. Com que objetivos?

DF – O nosso maior objetivo é poder formar e informar a comunidade veterinária relativamente à prática da dermatologia veterinária. A dermatologia é normalmente uma área que traz grandes frustrações, porque as patologias são, na sua maioria, crónicas e podem ser recorrentes noutros casos, e é importante que os clínicos se sintam confiantes no momento de abordar um caso de dermatologia.

O que queremos é desmistificar os temas da especialidade, dar ferramentas e conhecimentos para que os casos dermatológicos sejam abordados da forma mais correta possível.

O nosso objetivo é, sem dúvida, a formação. Fazer chegar à comunidade uma formação de qualidade, baseada na prática clinica ao mais alto nível, baseada na evidência científica de modo a que se possam dar os melhores cuidados aos nossos pacientes.

Também queremos juntar todos aqueles que têm um especial interesse nesta área para que seja mais fácil a partilha de experiências clínicas, a discussão de casos ou até mesmo a investigação científica.

VO –  Quais são os planos futuros?

DF –  Mais e melhor. Promover mais formação de qualidade, dar mais informação útil e fiável, trabalhar cada vez melhor e quem sabe no futuro poder promover a especialização dos colegas nesta área.

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