Nos últimos anos, tem aumentado o número de organizações que procuram cães treinados para detetar doenças em humanos. A formação de cães para este fim tem vindo a ganhar expressão em países como o Reino Unido, onde já existem associações exclusivamente dedicadas a esta vertente do treino animal, como a Medical Detection Dogs.

Um estudo publicado na revista PLOS ONE, em 2013, revelou a forma como 17 cães treinados por esta associação conseguiram desenvolver a capacidade de alertar os donos diabéticos quando os níveis de açúcar no sangue desciam demasiado. Com os fiéis amigos de quatro patas ao seu lado, todos os 17 pacientes acompanhados durante este estudo tornaram-se menos dependentes, registaram menos crises relacionadas com a diabetes e foram menos vezes assistidos por causa da desregulação dos níveis de açúcar.

Uma outra investigação demonstrou como cães foram capazes de detetar uma bactéria causadora de graves infeções hospitalares, cheirando as fezes de pacientes infetados. Outras pesquisas sugerem que conseguem até detetar vários tipos de cancro. Mas como são os cães, afinal, capazes de cheirar doenças?

 

 

O fator central é o cheiro. O alfacto canino é extremamente apurado. Para se ter uma ideia, é cerca de mil a cem mil vezes mais potente que o de um humano. Esta potencialidade despertou a comunidade médica para a possibilidade de colocar os cães a detetar doenças.

“Acreditamos que todas as doenças têm um odor associado, devido às mudanças que ocorrem no corpo, com diferentes órgãos a exprimirem diferentes compostos químicos. Esses aromas são evidentes na respiração e no suor”, explica Ralph Hendrix, diretor executivo da Dogs4Diabetics, uma organização americana fundada em 2004 que treina cães para acompanharem diabéticos insulinodependentes.

O processo de formação de um cão para detetar doenças não é rápido e só pode ser feito com um número limitado de raças e com animais que reúnam os critérios necessários. Os cães devem ter um comportamento adequado e uma boa capacidade de se ligarem emocionalmente ao doente. Os labradores e os Golden Retrievers são as raças mais utilizadas. “Pode funcionar com outras raças, mas essas raças são bem aceites por causa do temperamento e da disposição que têm de trabalhar com seus companheiros humanos”, saliente Hendrix, em declarações ao Medical News Today.

Os cães são treinados com base num cheiro retirado da respiração ou do suor de um diabético quando este sofre um ataque de hipoglicemia. Os pacientes recebem também formação da Dogs4Diabetics de modo a conseguirem perceber os sinais dados pelo cão e até que ponto o alerta está correto. Para cão, diz Hendrix, tudo isto “é simplesmente um jogo”. Receber um cão devidamente treinado para ajudar no controlo de uma doença pode custar cerca de 20 mil euros, praticamente o mesmo que, por exemplo, um cão-guia para os doentes visuais.

 

Cheirar o cancro

 

A última evidência de que os cães conseguem identificar cancros surgiu já este ano, numa investigação dos médicos Clara Guest e John Church, da Medical Detection Dogs (MDD). Neste caso, a pesquisa foi direcionada para o cancro da próstata. A expectativa da MDD, que está a trabalhar em conjunto com Hospital Universitário de Milton Keynes – no Reino Unido – é que os cães ajudem a diminuir a taxa de falsos positivos nos testes que identificam cancro da próstata (três em cada quatro que recebem um resultado positivo não têm cancro) e, com isso, ajudem a evitar a realização de outros de diagnóstico invasivos e dolorosos. Já em 2010, foram apresentados dados, numa reunião da Sociedade Americana de Urologia, que indicavam que os cães conseguiam identificar este tipo de cancro pela composição olfactiva da urina dos doentes.

 

Cão tenta identificar odor associado ao cancro do ovário no Working Dog Center da Universidade da Pensilvânia.

 

Também um estudo de um grupo de investigadores do Hospital Schillerhoehe, na Alemanha, feito em 2011, comprovou que os cães são eficazes a detetar casos de cancro do pulmão, um dos mais mortais e assintomáticos tipos de cancro, com base no ar expirado pelos doentes. Os cães identificaram com sucesso 71 casos em 100 possíveis.

Mais recente é a ligação com o cancro do ovário. Já está em andamento um projeto, partilhado por várias universidades no estado da Pensilvânia, nos EUA, que conta com três cães (um Springer spaniel, um pastor alemão e um labrador) e que pretende desenvolver a capacidade de estes cheirarem um marcador olfativo – um odor – em amostras de sangue e de tecido de mulheres com cancro do ovário.

“O valor real do cão tem a ver com a sua capacidade de detectar mudanças mais precocemente, dando ao doente a oportunidade de se tratar” e de evitar o internamento hospitalar, diz Rob Harris, da Medical Detection Dogs. Ou seja, uma oportunidade de salvar vidas.

Vet-Online

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