Estima-se que cerca de 17% dos humanos morrem de cancro, mas no caso dos elefantes em cativeiro a percentagem é de menos de 5%, ainda que sejam animais que vivam durante muitos anos e tenham cerca de 100 vezes mais células do que os humanos. Estes são dois fatores que aumentam a probabilidade de desenvolver cancro, uma vez que  na divisão celular é possível replicar as que são potencialmente cancerosas.

Em 2015, equipas de investigadores da Universidade de Chicago e da Universidade de Utah, nos EUA, descobriram, em separado, que o elefantes têm 20 cópias do gene supressor tumoral, o p53, enquanto que os humanos têm apenas uma cópia. Isso faz com que as células dos elefantes sejam significativamente mais sensíveis ao DNA danificado, tornando o processo de morte celular mais rápido.

Na edição de 14 de agosto de 2018 da revista Cell Reports, os autores descrevem um segundo elemento desse processo: um gene anticancerígeno que volta a funcionar.

Em comunicado, os autores explicam que os elefantes desenvolveram uma forma de tornar o LIF6, um gene “morto”, funcional. Em resposta aos danos no DNA causados durante a divisão celular ou por raios ultravioleta, o gene supressor de tumor p53 estimula o LIF6 “zombie”, como apelidaram os autores, a matar eficientemente as células que podem ser cancerosas nestes animais.

“Os elefantes desenvolvem cancro muito menos do que esperávamos tendo em conta o seu tamanho, então quisémos entender a base genética para essa resistência”, diz um dos autores do estudo Vincent Lynch, geneticista e biólogo evolutivo da Universidade de Chicago, EUA, em comunicado. “Descobrimos que os elefantes e os seus semelhantes têm muitas cópias não funcionais do gene LIF, mas que os próprios elefantes desenvolveram uma forma de transformar uma dessas cópias, LIF6, de volta”, acrescenta.

Na sua análise, os investigadores compararam os elefantes com os seus semelhantes, inserindo danos no DNA dos animais para verificar se as células dos elefantes respondiam de forma diferente à ameaça de cancro.

“As células do elefante acabaram por morrer; elas eram inteiramente intolerantes a danos no DNA”, disse Lynch. “Como as células do elefante morreram assim que o DNA foi danificado, não houve risco de se tornarem cancerosas”.

O passo seguinte foi identificar o mecanismo genético responsável. Como parte de seu laboratório estuda o papel do LIF na gravidez e porque uma das proteínas que o gene produz ajuda na supressão de tumores, Lynch ficou animado ao vê-lo copiado tantas vezes no genoma do elefante.

Quando os investigadores bloquearam a expressão do LIF6, as células do elefante começaram a tolerar os danos no DNA, tornando-se cancerosas com o tempo. E quando ativaram o LIF6 em animais que normalmente não o possuem, como em ratos, todas as células com danos no DNA sofreram apoptose. Isso significa que o gene LIF6 é responsável pela maior sensibilidade que as células de elefantes têm com danos no DNA indutores de cancro.

Lynch explica que ao introduzir danos no DNA, o supressor de tumor p53 é ativado, que, por sua vez, ativa o gene LIF6, fazendo com que ocorra a apoptose celular.

Os autores realçam que também as baleias, os morcegos e os ratos-toupeira apresentam resistência ao cancro, ainda que não tenham os genes LIF “zombies”, o que quer dizer que “desenvolveram resistência ao cancro com uma estratégia diferente e que existem muitas outras formas de combater o cancro”.

Ainda no comunicado, Lynch espera que esta descoberta abra caminho para a prevenção do cancro nos humanos: “talvez possamos encontrar maneiras de desenvolver medicamentos que imitem os comportamentos do elefante LIF6 ou que obtenham células cancerosas para ativar suas cópias “zombies” existentes do gene LIF”.

Vet-Online

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